Bixiga
O Bixiga é um território localizado entre os bairros da Liberdade, Paraíso, Morro dos Ingleses, Consolação e a Avenida Paulista. Embora não exista oficialmente na divisão administrativa da cidade, é considerado um dos bairros mais tradicionais da cidade de São Paulo, principalmente pela forte influência da imigração italiana em sua história.
Sua origem como bairro remonta à segunda metade do século XIX, período em que o impulso econômico do café e o aumento do fluxo imigratório na cidade de São Paulo geram sua primeira expansão urbana. Antes desse período, sua importância para a cidade era pequena, visto que a maior parte das atividades urbanas ocorria na região do triângulo, localizado na colina histórica.
As terras do Bixiga pertenceram a diversos proprietários entre o período da fundação da cidade e seu loteamento nos anos de 1800. Em 1559, todas as terras, que formariam o bairro no futuro, faziam parte da sesmaria do “Capão” e pertenciam a Antonio Pinto. Poucos registros do século seguinte fazem referência a essas terras, e somente ao longo do século XVIII é possível identificar a transferência das terras entre pelo menos 3 proprietários.
Entre 1750 e 1773, a área recebia o nome de Chácara da Samambaia, e seu proprietário era o historiador Pedro Taques. Já no período de 1773 a 1789, seu nome passa a ser Chácara do Gusmão. Seu último registro de venda no século XVIII, em 1794 para Antônio Calheiros, cita “uma chácara nesta cidade na paragem Anhangabaú, denominada vulgarmente Bexiga”. A partir disso, é possível deduzir que, entre os anos de 1789 e 1794, algo ou alguém transmitiu esse nome para a chácara.
A historiografia a respeito da origem do nome do local é inconclusiva. A palavra “bexiga” é associada à varíola, […] doença que assolava boa parte das cidades brasileiras, inclusive São Paulo, remetendo ao lugar onde provavelmente foram registrados casos e quem sabe a esse indivíduo, cujo apelido aludia à presença de Antônio Calheiros, também conhecido como Antônio Bexiga.
Em 1819, os escritos do viajante Auguste de Saint-Hilaire (1976, p.121), em sua viagem à província de São Paulo, fazem referência ao “[…] albergue de um certo Bexiga, que possuía, em São Paulo mesmo, vastas pastagens”.

Durante a visita de Saint-Hilaire, a estalagem já não pertencia mais a Antônio Calheiros, e sim a Antônio Manuel. Como ambos os proprietários receberam a alcunha de Antônio Bexiga, é possível inferir que, talvez, os proprietários tenham pegado o nome do local, e não o contrário.
Outra hipótese que reforça a ideia de o nome Bixiga ter origem no local, e não nos proprietários de suas terras, é a de que a região servia de refúgio aos acometidos de varíola.
É certo que na região dos Campos do Bexiga se localizavam doentes atacados de varíola, como ocorria em todos os arrabaldes de São Paulo. O que parece é que se pretendia isolar os doentes, sendo retirados do centro da cidade e permanecendo em casas separadas.
Uma terceira hipótese é a de que havia um matadouro nas proximidades do local, o qual realizava o comércio de miúdos, entre os quais bexigas de bois e porcos. Contudo, registros só indicam a presença de um matadouro na região a partir de 1830, tornando mais fraca esta terceira hipótese, visto que o nome Bixiga precede esta data.
Quanto à grafia do nome do bairro, o uso da palavra bexiga, com “e” era padrão em jornais do século XIX. Contudo, aos poucos, sua grafia passa a conter a letra “i” em vez do “e”. Uma das explicações para tal grafia se refere ao jeito coloquial de se falar. Outra se refere ao desejo dos moradores de afastar o sentido pejorativo da doença ou das bexigas de bois comercializadas no local.
Já no século XX, o extinto jornal “O Bixiga” popularizou ainda mais a grafia com “i”, e até hoje publicações recentes ainda usam esta grafia informal.
Chegou a pertencer também ao Barão de Tietê, tendo sido vendida, em 1845, a Antônio José Dias Leite.
Tinha as seguintes confrontações: confinava nos fundos com o sargento-mor Hermenegildo José dos Santos e, pelo lado direito, com Lúcio Manoel Félix dos Santos Capelo e com o Dr. Joaquim Inácio Ramalho e Barão de Iguape e, pelo lado esquerdo, pelo córrego Reuno, até as vertentes da chácara do capitão Benjamin José Gonçalves, seguindo o valo a estrada da Vila de Santo Amaro, até finalizar com terras do sargento-mor Hermenegildo.
Apesar da proximidade em relação à região central, o relevo acidentado e os córregos do Saracura e Bexiga, sujeitos a constantes cheias e inundações nas épocas das chuvas, dificultavam a conexão entre a região do Bixiga e o resto da cidade, tornando-a pouco atraente para ocupação antes de sua urbanização.
Seus últimos proprietários foram Tomás Luís Álvares (Tomás Cruz), que as vendeu à firma Antônio José Leite Braga & Cia por volta de 1850. Em meio à epidemia de urbanização promovida pela chegada da ferrovia a São Paulo, Antônio J. L. Braga é quem promove a demarcação, a abertura de ruas e inicia as vendas de terrenos da chácara do Bixiga.
Os Campos do Bixiga, até então, eram considerados um arrabalde da cidade de São Paulo, mas com o loteamento e arruamento de suas terras, passam a integrar o urbanismo da cidade e, em meados de 1878, já era possível encontrar anúncios de venda dos terrenos do Bixiga em jornais da época.


Em 1882, são edificadas as primeiras casas do Bixiga. Em seguida surgem os primeiros comércios, e no início do século XX, já é comum a presença de quitandas, açougues, armazéns, padarias e oficinas na região, indicando um amadurecimento do bairro, poucos anos após sua fundação. O sucesso do loteamento do bairro e seu consequente desenvolvimento levam algumas famílias paulistanas, incluindo algumas consideradas tradicionais, a elaborarem um abaixo-assinado e encaminhá-lo à Câmara solicitando a mudança do nome da região, com vistas a mudar sua imagem e valorizá-la. O abaixo-assinado solicitava a troca do nome “Campo do Bexiga” para “Campo da Bella Vista”, afirmando que o nome Bexiga não remetia a qualquer tradição paulista. Essa demanda só seria atendida em 1910, com o seu desmembramento do distrito da Consolação e com a criação do “distrito de paz da Bella Vista”.
Ao final do século XIX e início do século XX, o empreendimento imobiliário avança na região, voltando-se especialmente à exploração locatícia das casas construídas, atividade que posteriormente contribuiria para torná-lo um dos bairros mais populosos de São Paulo.
Neste mesmo período, durante a virada do século, o Bixiga também foi alvo de diversos melhoramentos como os serviços de bondes, de águas e esgotos e outras obras sanitárias. Diferentemente da São Paulo colonial, na qual as atividades se concentravam na colina histórica, a nova São Paulo possuía uma maior tendência à especialização dos espaços.
Enquanto no perímetro central se concentravam serviços e comércios, os bairros adjacentes foram destinados às camadas médias e baixas, abrigando manufaturas e ofícios indesejados.
Bairros como Bom Retiro, Barra Funda, Brás, Mooca, Lapa e Água Branca foram destinados à instalação de fábricas e vilas para seus trabalhadores. As camadas mais altas que deixaram o centro em um primeiro momento, inicialmente se instalaram nos Campos Elíseos, mas posteriormente migraram para áreas mais altas e de uso exclusivamente residencial como o Morro dos Ingleses, a Avenida Paulista e Higienópolis. Já o Cambuci e o Bixiga abrigaram o comércio simples, voltado ao abastecimento alimentar e à prestação de serviços menos especializados, como oficinas de marceneiros e carpinteiros, vidraceiros, entre outros. A localização do Bixiga entre bairros exclusivamente residenciais, como o Morro dos Ingleses e a região da Avenida Paulista, e o centro da cidade, garantiu condições favoráveis para que comércios alimentícios se instalassem no bairro.
Muitos dos comércios instalados no Bixiga pertenciam a imigrantes, principalmente italianos, espanhóis e portugueses. Apesar de, originalmente, a vinda dos imigrantes ser motivada pela oferta de trabalho nas lavouras de café, muitos deles perceberam condições interessantes de trabalho em São Paulo e preferiram se instalar na capital. É nesse contexto que surgem algumas oficinas, sapatarias, alfaiatarias, padarias e cantinas administradas por imigrantes, que influenciariam na povoação do Bixiga e ajudariam a consolidar a ideia de bairro italiano no imaginário popular.
Afirmar que o Bixiga era um bairro italiano “sugere certa homogeneidade, um bairro com um caráter de uniformidade social, étnica, arquitetônica e funcional”. No entanto, apesar de liderada pelos imigrantes italianos14, a composição étnica do Bixiga envolveu um grande número de outras etnias, como portugueses, espanhóis, sírios, libaneses, e principalmente brasileiros brancos e negros. Apesar disso, por conta do ideário europeizante promovido paralelamente à epidemia de urbanização em São Paulo, os brasileiros, principalmente negros, sofreram com um esquecimento sistemático ao longo da história.
Trata-se de “um dos processos alienantes mais antigos, largamente usado nos dias atuais pelos países desenvolvidos em relação aos seus dependentes”, e visa desestruturá-los em suas raízes, substituir suas tradições, costumes e impor-lhes sua língua e ideias. Neste sentido, enfatiza-se a posição do mais forte e se omite o pensamento de manifestações populares de grupos minoritários, criando uma “invisibilidade” desses grupos ao longo da história.
Historicamente, a construção do Bixiga como “marca” suprimiu a participação do negro na trajetória do bairro, o que contribuiu para a criação da imagem “romantizada”, não só do local, mas também da cidade de São Paulo como uma cidade multiétnica, desde que italiana, oriental, árabe ou judaica.
Apesar de negligenciados na construção da imagem do Bixiga, os negros já ocupavam certas áreas do local, décadas antes da chegada de quaisquer outros habitantes. As matas e colinas em torno do Tanque do Reúno, Anhangabaú e Saracura serviam de esconderijo para negros fugidos, que na primeira metade do século XIX já se aquilombavam ali. Por conta da geografia e vegetação do local, o entorno do Bixiga era um lugar conveniente para esconderijos de negros escravizados. A presença desses quilombos na região pode ser identificada através do requerimento apresentado à Câmara Municipal de São Paulo, pedindo “permissão para fecharem certos logares por onde passa o ribeiro Anhangabahu para a parte do Bexiga, em cujas margens se acoutão escravos fugidos, e ladrões”
A presença de afrodescendentes no Bixiga se intensificou durante o século XIX, após o fim do tráfico negreiro e a abolição da escravatura. Além disso, reconfigurações urbanas feitas no final do século deslocaram a população negra que residia próxima à igreja original da Sé. Durante este período , esse movimento de ocupação da população negra se estabeleceu em duas direções:

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No Caaguaçu (região da atual Avenida Paulista / cor verde na figura x) – região em que permaneceram até por volta dos anos de 1890, quando teriam sido expulsos para dar lugar aos loteamentos da Av. Paulista e da Vila América (atual Jardim Paulista).
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Nas proximidades da várzea do córrego da Saracura (atual Avenida Nove de Julho, em seu trecho entre a Avenida Paulista e o centro da cidade / cor laranja na figura x), onde até hoje se encontra ao menos uma parcela dos descendentes dos primeiros ocupantes.
A desigualdade na disputa pela ocupação do espaço já existia desde então. Quando ocorreu um aumento no fluxo imigratório, paralelamente ao início da urbanização do bairro, os novos moradores do Bixiga se instalaram nas quintas, enquanto a população negra habitava a região do vale do Saracura, que na época era uma região de difícil acesso por conta de suas condições geográficas. A inexistência de infraestrutura e serviços urbanos básicos condicionou uma ocupação mais precária em terrenos menos valorizados do que aqueles vendidos no loteamento original, agravando ainda mais as condições de vida de seus habitantes. Além das condições de habitação insalubres geradas pela urbanização tardia do vale do Saracura, os negros e pardos que habitavam a região já carregavam o ônus de um passado escravista recente, que determinava sua posição na escala social. Esses dois fatores, associados à crença generalizada na superioridade racial e cultural do estrangeiro, ratificaram a discriminação dos valores atribuídos aos negros na sociedade contemporânea, inclusive àqueles instalados no bairro do Bixiga, e criou no imaginário coletivo a representação de um perfil social igualmente precário, encobrindo a pluralidade de pessoas que ali habitavam.
Além da homogeneidade étnica, outro mito a respeito do Bixiga italiano é a respeito da arquitetura do bairro. Existe uma ideia no imaginário coletivo, e frequentemente reiterada por iniciativas públicas e privadas sobre a memória do bairro, de que as casas do Bixiga eram feitas pelos capomastri, “arquitetos” italianos que, segundo a tradição oral, não usavam qualquer tipo de planta, e definiam a divisão dos cômodos traçando diretamente o solo com a ponta do guarda-chuva.
Embora seja inegável a forte presença da comunidade italiana na composição do Bixiga, e os capomastri, de fato, tenham participado da construção do bairro, essa influência italiana na arquitetura local não se sustenta. A aprovação da construção de novos imóveis em São Paulo dependia do prévio preenchimento dos requisitos estabelecidos pela Diretoria de Obras do município, o que incluía plantas, e em caso de descumprimento, a obra seria embargada e até mesmo demolida. Portanto, construções exóticas dificilmente seriam aprovadas.
Além disso, as fachadas de caráter eclético, que ainda hoje são possíveis de serem observadas no bairro, foram comuns a outras cidades e capitais brasileiras em que a presença do imigrante italiano não foi representativa, assim como a distribuição interna dos cômodos observáveis nos projetos arquitetônicos. Ou seja, embora proprietários e usuários sejam majoritariamente imigrantes, sobretudo italianos, os imóveis não traduzem seu modo de viver específico, mas resultam da legislação imposta pela municipalidade e de padrões de habitação há muito consolidados no Brasil, com o receber à frente, o repouso no meio e os serviços no fundo.
Apesar de os imigrantes italianos não determinarem a arquitetura do Bixiga, sua presença foi determinante na construção e promoção da imagem do bairro. A partir das décadas de 1930 e 1940, a popularização das cantinas, impulsionou a vida noturna da região.
Além da gastronomia, o Bixiga se tornou um reduto de artistas, músicos, boêmios, seresteiros, graças à proliferação dos teatros neste período. A popularização do teatro e as massas italianas transformaram o bairro em um ponto de encontro de famílias que buscavam uma “experiência paulistana”.
Ainda hoje, a tradicionalidade das manifestações culturais de suas etnias originais, faz grande parte da cultura do Bixiga. Festas como a de Nossa Senhora Achiropita atraem milhares de pessoas para a região anualmente.
O Bixiga é um bairro composto por um universo de fragmentos históricos e culturais que expressa como nenhum outro bairro a mescla étnica afro-europeia existente na sociedade paulistana. Por outro lado, apesar de sua riqueza étnica e cultural, o constante fluxo migratório presente no bairro, associado aos interesses econômicos dos proprietários locais e à inércia das autoridades, gerou grandes problemas habitacionais no bairro, já nas primeiras décadas do século XX.
Na década de 1920, mesmo com a predominância de edificações horizontais, o bairro do Bixiga já era um dos bairros mais densamente povoados de São Paulo graças as suas casas de porões altos, onde diversas famílias se instalavam. Além disso, a crise econômica de 1929 determinou o término da monocultura cafeeira e provocou um aumento da população urbana, na medida em que o trabalho no campo era substituído pelo trabalho nas fábricas da cidade.
Neste contexto, a corrente migratória, o crescimento desorganizado da cidade e a escassez de moradias fizeram com que o Bixiga fosse uma opção de moradia para as camadas mais pobres, graças a sua proximidade com o centro, ao baixo valor de locação dos imóveis, e à tipologia das edificações (geralmente sobrados ou casas geminadas com máximo aproveitamento do terreno), que permitia a subdivisão de cômodos, mesmo que de forma insalubre.
Outro fator que contribuiu para a desvalorização do Bixiga e para o aumento do encortiçamento de seus imóveis foi o avanço da urbanização e o progresso das obras rodoviaristas em São Paulo, os quais geraram cicatrizes irreversíveis na estrutura do bairro. A abertura de avenidas como 9 de julho na década de 1930, a Radial Leste-Oeste e a avenida 23 de Maio posteriormente, mudaram completamente a configuração do bairro, promovendo a demolição de milhares de casas, criando espaços residuais difíceis de serem ocupados, e dividindo o bairro permanentemente para dar lugar aos carros.
Essa mudança de cenário isolou porções do bairro e provocou a saída de muitos moradores originais para outras áreas da cidade. A saída dos antigos moradores gerou um aumento no número de espaços vazios no bairro e abriu espaço para a chegada de migrantes, principalmente nas décadas de 1950 e 1960.
Nos anos 1960, o Bixiga já podia ser o bairro com maior densidade demográfica da cidade. Numa variação de escala crescente de 5 a 30 domicílios por hectare, sua posição era do último da escala. Essa densidade se explicava menos pela verticalização, e mais pela enorme subdivisão de cômodos nos imóveis.
Nas décadas de 1970 e 1980 a situação do bairro do Bixiga permanecia a mesma: […] o imóvel era transformado em cortiço pelo seu proprietário ou alugado para um empresário – na maioria – que toma a si o encargo de subaluga-lo (quarto por quarto, cama por cama), obtendo uma renda muito superior à da locação de imóvel comercial na área. Este lucro, proveniente da exploração de um aglomerado urbano, é tentador, dentro de um cenário terceiro-mundista. O cortiço é uma habitação O cortiço é uma habitação miserável, porém legal e disfarçada. O migrante mora provisoriamente na casa, em busca de outro lugar para viver, e não tem tempo de fazer ligações afetivas com o imóvel e de cuidar do visual arquitetônico. Nesse período, os operários e empregados domésticos habitantes desses cortiços já não eram mais italianos, mas sim negros e migrantes, sobretudo da região Nordeste do país.