Clemente Antonio Pereira (Preto Leôncio)
Dos tipos populares que habitavam as ruas de São Paulo no final do século XIX, nenhum era mais conhecido do que Clemente Antonio Pereira — o “Preto Leôncio”. Nascido escravo na casa do Conselheiro Leôncio de Carvalho, de quem herdou o nome, Clemente cresceu ao lado do conselheiro, tendo sido, segundo relatos, criado pela mesma ama de leite.

Após a abolição da escravatura em 1888, Clemente passou a perambular pelas ruas da cidade, bebendo, fazendo discursos à porta do Palácio da Presidência e dando ordens à polícia. Tornou-se presença constante em manifestações políticas de toda estirpe, distribuidor de avulsos e figura querida na vida acadêmica da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Dormia na Estação da Luz quando lhe apetecia e saía pela manhã sem dar satisfações à sentinela — dizia que bebia para “acalentar o frio de São Paulo”.
Em reconhecimento à sua popularidade, foi contratado como porteiro-reclame da Casa Alemã, tornando-se mais do que funcionário: era a própria vitrine ambulante do estabelecimento.
O incidente da Rua de São João
Leôncio foi também homem de caráter firme. Certa noite, improvisando um comício numa esquina mal iluminada da Rua de São João, foi cercado por um grupo de italianos que o pressionava a dar vivas à Itália. Recusou. Deu vivas ao Brasil e foi esfaqueado e baleado, ficando gravemente ferido. A sequela foi uma perna manca — e uma reputação ainda maior de brio.
Memórias acadêmicas
Em palestra proferida em 12 de setembro de 1931, no Salão Steinway, o advogado e escritor Alfredo Pujol evocou a figura de Leôncio para os estudantes do Centro Acadêmico 11 de Agosto:
“Esse preto Leôncio foi o cozinheiro da nossa república durante todo o meu curso acadêmico. Era de uma bondade rara, de uma dedicação absoluta, de uma fidelidade sem par. Tudo lhe confiávamos, desde o dinheiro — que era pouco, mas que para nós valia muito — e todos os mais valores que se acumulavam na nossa república, que se resumiam nos livros, nas roupas e nas raras joias.”
Leôncio ocupou seu posto de destaque na vida paulistana do último quartel da Monarquia até o primeiro quartel da República — recebido sempre com carinho pelas Arcadas, como relíquia viva de tempos idos. Faleceu provavelmente na primeira década de 1900 e foi sepultado no Cemitério da Penha.